segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

O Inferno de Nós

Toda entorpecimento abre uma janela. Todo aprofundar de níveis inebriantes apresentam novos círculos.
Às vezes, mas bem raramente, acredito que Dante escondeu alguns círculos de nós. Não seria possível viver sabendo da existência de alguns. Seria, sem dúvida, impossível.
Se abaixo de seus pés nove encaminhavam-se às profundezas da Terra, quantos mais poderiam existir, medidamente, nas profundezas da etérea mente? E mais: quantos, então, nas profundezas da eterna alma?
E se a alma, por ser eterna, nos foi concedida como castigo?
Talvez o castigo seja não exatamente a eternidade. Talvez o castigo seja considerarmos que somos castigados. Por quê? Qual a razão?
Pareço um paradoxo de mim mesmo, observando de longe a mim, rindo e zombando. Pareço um paradoxo de mim mesmo, avaliando-me de perto, chorando e confortando. Pareço um paradoxo de mim mesmo.
Na amplitude dos paraísos, purgatórios e infernos, percebo que Dante, simplesmente, possuía o mais saboroso de todos. De melhor fragrância e, ouso, de melhor música. Dante possuía a satisfação de assistir seus desafetados pagarem. Virgílio não se importava, apenas estava ali como guia. Talvez Virgílio mal compreendia onde estava, mesmo sabendo de cor e salteado onde estava.
De qualquer modo minha inveja ao inferno do Dante é tremenda. Ele poderia circular, observar, cheirar, tocar, ouvir e fechar os olhos. 
Eu também criei um inferno, é verdade. Infelizmente ele não tem começo. Eu jamais vi uma saída e nunca ninguém se aventurou por ele. Minto. Há uma presença humana no meu inferno. Ela não faz frente à Beatriz que Dante amava, mas ela faz frente ao meu castigo. Ela sabe onde começa, mesmo sem saber. Ela saber onde termina, mesmo sem saber. Ela sequer sabe que talvez saiba, no entanto quando ela o depara, ela o reconhece.
Dante, ao meu ver, foi um desafortunado. Possuía um inferno cheio de pessoas conhecidas (sim, puros desafetos), no entanto estava fadado a ser guiado.
Meu prazer, se é que assim posso chamá-lo, não é ter um inferno. Meu prazer é saber que nele há alguém que, talvez, o habita mais tempo que eu mesmo. Alguém que também o conhece e reconhece. Alguém que não me serve de guia, mas sim, de companhia.
Meu prazer não é um consolo ao desalento, meu prazer é ter solidão ao lado de alguém que vive a solidão. E creio que, pela primeira vez em vida, não vivo um sentimento egoísta.
Entenda (para quem não entende), isso está longe de ser algo estritamente egoísta. Isso é um ode. Sim! um ode! Um ode somente à quem tem capacidade de entusiasmar-se com ele. Talvez quem seja jamais o leia, mas honestamente?, isso não importa.
Ela sabe disso tudo... Vivemos juntos a mesma coisa, em locais diferentes.

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