sábado, 26 de julho de 2014

Contraponto

Maldição é a condenação do divino, seja ele maldito tal qual a condenação divina.

Rinite descabida

Dentre ossos e cinzas o espirro espalha toda a sina.

Rinite descabida

Dentre ossos e cinzas o espirro espalha toda a sina.

quinta-feira, 24 de julho de 2014

Sinfonia do desespero

Quem canta seus males espanta?
E para quem vive no silêncio, pois a melodia só tem sentido em poucos instantes? Vive?
Que teus grunhidos e urros sejam sinfonia...

Indisposição pessoal

Tirei o telefone do gancho. Disquei. Chamou, atendeu em silêncio. "Alô? Passado? És tu quem estás ai?" Desliguei.
Naquela velha agenda, todos os números, sem exceção, resultavam na mesma resposta - ou falta dela.
Tornei a tirar o telefone do gancho. Disquei um número qualquer. Chamou e atenderam.
_Pois não?
_Ola! Eu liguei aleatoriamente e não sei à quem pertence esse número. Poderia informar?
_Claro, ele pertence à ti, senhor. Ligaste para o futuro. Daqui, da época em que falo, o senhor já não pertence mais.
_Oh! Então muito obrigado. - E desliguei. Perplexo. Sequer recordava o número que liguei e, honestamente, tampouco tive coragem de saber que época era aquela que falaram.
Foi então que pensei em ligar para o presente e conversar comigo - se é que eu encontraria à mim. Liguei. Atendeu a secretária eletrônica, disse que havia viajado, que não sabia quando retornaria e que, talvez, nem retornaria. Coloquei o telefone no gancho. Levantei de onde estava sentado e, ao fechar a porta, ouvi o telefone tocar e a secretária eletrônica atender: já não estava mais à disposição de mim.

quarta-feira, 23 de julho de 2014

Descons.

De certo modo, enquanto possível e saudável, esqueça de si. Deixe alguns pedaços em alguns lugares e, sem atenção, continue. Lembre-se de voltar e se reencontrar. Não permita que a inércia se instaure. Esqueça para lembrar, lembre de esquecer e, acima de tudo, saiba que alguém sempre estará por lembrar. Livre-se desses. Pode deixá-lo em qualquer local de perigoso e impossível acesso. Desfaça-se desses. E desfaça a si, também.

terça-feira, 22 de julho de 2014

Singular plural

Sabe, pensando conjuntamente com os diversos eus existentes em mim, concluímos que é muito difícil.
Andamos em carros alemães, em motos japonesas. Bebemos água da fonte de outra cidade, de álcool mexicano, irlandês, russo. Comemos das receitas exóticas do oriente e de alguns ocidentes. Respiramos de aromas franceses. Contemplamos pinturas espanholas e arquiteturas italianas. Navegamos e voamos em território que não é de nossa pátria. Ouvimos música de todas as cultura. Falamos línguas que não a nossa materna. Com tudo isso em mente e, de certa maneira, ainda procuramos uma única pessoa que satisfaça nossa pluralidade ou, francamente, nossas singularidades.
Sim, sem dúvida, concluímos que é muito difícil.

Enquanto poucos anseiam por muito, e muitos anseiam por pouco eu, simplesmente, anseio não ansiar.

segunda-feira, 14 de julho de 2014

Pequenas coisas

Satisfaz-me as pequenas coisas: aquelas que caracterizam o homem em animal, e daquelas que caracterizam os animais em bestas.
Satisfaz-me as pequenas coisas: aquelas que profanam os santos, e daquelas que canonizam os depravados.
Satisfaz-me as pequenas coisas: aquelas que eu não faço o que digo, e daquelas que eu não digo o que faço.

Satisfaz-me as pequenas coisas.

sexta-feira, 11 de julho de 2014

RUI(na)

Um brinde
À ruína do homem
Um brinde ao
Arruinado homem
Uma gargalhada para
A ruína do homem

a(RUINA)do...

Infames unânimes
Todos insonsos
Atrozes e algozes
Elegantes uivantes

(Uma rima sem ruína, com pretensões descabidas em uma mal humorada manhã chuvosa de sexta-feira)

segunda-feira, 7 de julho de 2014

Hoje sou tormenta

A diferença entre uma brisa e uma tormenta é a quantidade de pensamentos que o vento possui naquele instante.

domingo, 6 de julho de 2014

Inércia temporal

Às vezes tenho vontade de nada

Nem de vida
Nem de morte
Nem de sucesso
Nem de fracasso

Somente a vontade do nada.

sábado, 5 de julho de 2014

Sofro de um mal
Um mal desencontrado
Experimentado pelos amaldiçoados

Sofro.

terça-feira, 1 de julho de 2014

Tic-tac

Quem passa? Os ponteiros? A areia? As pessoas? Algumas vidas? Habitantes de espaço, cidades cheias deles.
E alguns ainda dizem que a culpa é das estrelas, como se elas tivessem culpa. Como se um mapa fosse responsável pela jornada. Lamentável.