quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

Desavenças

Frequentemente questiono se o que mais gosto em nós é a proximidade ou o afastamento. Se as palavras ou se o silêncio. Se a importância ou a indiferença.
Também pergunto-me se nossa amizade vale mais que nossa inimizade. Se nosso abraço mais que caras fechadas. Se o foda-se mais que o foda-me.
Sim, eu me indago muito. Sobre mim e nós, mas somente motivado por minhas agruras.
Sou, em mim, um péssimo companheiro. Mas disso eu já sabia, já de ti... Acho que tanto faz...

Ou não...

Quem sabe?

segunda-feira, 23 de novembro de 2015

Perturbações paradisíacas

Sempre que estou quase fora de mim, vou para o meu paraíso. É à beira mar, com praia sem ondas, calmo e revigorante. Nunca sei se é pôr ou nascer do sol, logo não sei e estou à leste ou oeste. E isso não importa. Eu chego lá, calmamente, então vêm tuas idéias e me perturbam. Tiram minha paz. Agitam minha águas. Acabam com meu paraíso. E nessas horas eu queria era acabar contigo.

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

(Sempre ele) O Tédio

Às vezes, o que preciso, é que arranquem minha roupa, arranquem minha pele, minha carne, que quebrem meus ossos, desfaçam meu físico, eletrocutem minha mente, contestem minha opiniões e, se for possível, tenham coragem de dizer as verdades que necessito ouvir.
Às vezes, o que preciso, é que as pessoas tenham coragem de me enfrentar, e não é no punho, é na simples ideia.
Às vezes, o que preciso, é apenas de um conflito verbal... E não faço questão de vencê-lo.

Ode às nuvens (2)

Estava caminhando sobre as nuvens, com o Sol castigando minha pele. Era gostoso. Lá é tão frio que qualquer calor era bem-vindo. E subitamente fui surpreendido por um balão. Era daqueles meteorológicos, brancos e enormes. Foi engraçado. Ele parecia uma nuvem se elevando e, quando menos esperado, puf! se fez pleno balão. Poxa vida, como eu ri. Deitei na mesma hora, na nuvem mais consistente que vi, e rolei de rir pelo susto. Então, como se não bastasse toda aquela emoção, ouvi um rugido. A cada segundo tornava-se mais ensurdecedor. Mais e mais. Insuportavelmente mais. Era um foguete da NASA, com a missão para Marte. Não pude acreditar e peguei carona.
Hoje, alguns anos depois, confesso que quando fomos atravessar a atmosfera o calor era tão insuportável que desisti. Voltei para minhas nuvens e o castigo solar matinal.
Amo vocês, nuvens.

quinta-feira, 29 de outubro de 2015

SaZoNaLiDaDe

Minha janela é indiscreta: tenho vista de camarote para a lua de setembro a fevereiro de todos os anos.
Nosso caso é sazonal. Podemos nos encontrar na cama sem preocupações. Ela vem e eu, sempre, aqui a aguardá-la.
Hoje começa meu caso mais sério e longevo de tudo que já existiu e existirá.
Seja bem-vinda em minha janela, Lua

Prove a carne humana (Tão doce)

É da inquietude que eles gostam. Todos. Da insuportável tensão sobre água que, quando rompida, deixa cair até as coisas mais banais.
São pratos cheios de dor, ódio, angústia e selvageria. São regados com azeite sádico e algumas pitadas de sal maligno. Tudo com toque gourmet.
E não são saciados com misérias, gostam de fartura. Gostam de sentir o sabor do sangue daquele lindo pedaço de carne humana. São uns perversos, sem dúvida...

...e os compreendo perfeitamente.

quarta-feira, 17 de junho de 2015

Sabedoria esfarelada (Cimento indigno)

Conhecimento é necessário até que ponto? Já se perguntou? Não importa o tipo ou a motivação: quase prudente e sensato é o conhecimento sobre tudo o que se deseja? Não sei.
É fato que não sabemos de tudo, que não saberemos de tudo e que, tampouco, deixarão que saibamos de tudo. Sim! Por vezes, e essas são muitas, o mais plausível é que estejamos à margem da ignorância. Exatamente! Mas não por que assim desejam, e sim para o nosso próprio bem.
É evidente que nem todos sabem lidar com a liberdade que lhe é proporcionada. Alguns não saem da caverna, outros relutam em deixa-la e, tantos, sequer sabem o que fazer dela. ELES NÃO SABEM O QUE FAZER. Sim, recebem a liberdade e não compreendem seu valor. Pior, não compreendem seu significado. Liberdade é poder voltar ao local de onde se partiu sem remorso da jornada. E ir sem temer retornar. É o despudor em não viver alienado.
Então, caro, pergunto-lhe se é sensato que todos saibam! Diga-me, dentre tuas ignorâncias, é cabido que todos detenham sabedoria? Se assim fosse, nosso sistema não existiria. Se nosso sistema não existisse não caberiam pessoas que o alimentassem.
De todo modo, sem entretantos e menos ainda com entrepoucos, creio na ignorância como rumo e acerto à felicidade. Sem dúvida.

segunda-feira, 8 de junho de 2015

Nego-te a mediocridade

Eu já estive do lado contrário. Sei exatamente como é esse tipo de situação. A diferença é que naquela época eu não tinha a experiência e os anos de lados trocados que possuo hoje. De fato não mesmo.
No passado eu gostaria que alguém questionasse a razão daquela (ou daquelas) atitudes. Seria reconfortante! Talvez tivesse me transformado mais cedo, cometido menos erros e, quem sabe, escrito as primeiras palavras desse texto anos antes. Mas não, nunca disseram nada... E sempre julguei agir corretamente. E também, eu não dizia nada para ninguém (algo que devo reconhecer). Mas eu não dizia pois eu entendia o que a pessoa estava passando, então fazia o que imaginava correto e, simplesmente, a deixava em paz (tal qual eu fantasiava ser a real vontade por trás de mim mesmo).
Mas hoje cá estou, anos depois de alguma coisa que já deveria ter acontecido. Feliz? Infeliz é que não! Porém com essa sensação amarga de voto de confiança desperdiçado por algo completamente leve e desprendido de obrigações. E essas desobrigações nos levam à ilusão de que sequer as obrigações humanas são necessárias... Até o dia em que notamos o quão desumanos fomos e quão isso é incongruente com a nova realidade.
Mas não sou juiz, sou justiça. Serei sempre em favor da lógica, seja ela ilógica pois, se até os números são imaginários, quem serei para questionar? Sou capaz de somar vazios e possuir algo, ao fim. Paradoxo, mas possível.
Devaneios a parte, é disso que necessitamos: começo, meio e fim. Começo com risos, meio com gozos e fins com adeus. Desses sem drama, sem choro e sem remorso pois foi verdadeiro. E ai de quem negar adeus. Coubera as vestes da mediocridade àqueles que se negaram. E àqueles que a tiveram negada? Um eterno sonho de desejo.


quarta-feira, 27 de maio de 2015

Em que sentido a bússola aponta?

Às vezes essas coisas acontecem, mesmo. Nos perdemos em nossos erros. Nos perdemos em bobas inseguranças. Nos perdemos à procura e, até mesmo, procuramos nos perder.
Estamos caminhando, muitas vezes correndo. Sequer tropeçamos e tampouco paramos para olhar mapas. Continuamos uma jornada errante aos trancos e barrancos. Esquecemos por onde caminhamos e de onde viemos. Pior, esquecemos do por quê! Então, sozinhos, rodeados de nada e tantas perguntas nos questionamos: estou perdido? Passam-se minutos, horas, dias, semanas, meses e anos até a chegada da dúvida, da incerteza, dos receios e, por fim, dos medos. Ou ainda pior, esse dia nem nasce.
Vidas perenes, imersas em um labirinto sem saída e menos ainda de caminhos e recantos desconhecidos. Uma vida confortável com a bunda sobre a almofada mais macia, os cotovelos apoiados em tecidos aveludados, sua barriga encostando na madeira e seus pés, inchados, cruzados abaixo da cadeira. Aquela face apática, inexpressiva até lhe perguntarem: será que nos perdemos?
Sim, uma derrota com platéia, uma vergonha assistida e uma falta de senso digna de elogios. Perdeu-se? Não foi sozinho? Então és digno da piedade dos náufragos. Se perdeu a si solitariamente então, meu caro, boa viagem.

terça-feira, 19 de maio de 2015

Benzinho

Hoje fiz algo que raramente faço: dei ouvidos. Sim, dediquei atenção auditiva às ideias. Também cedi meu tempo e simpatia à carência, àquela necessidade em ser ouvido quando ninguém mais dá ouvidos. Admito, desde já, que não foi escolha minha. Foi o acaso. Essa deliciosa e nefasta entidade que, quando ao seu gosto, sacia sua sede e acaba por secar os desavisados. Bem, eu não era um desavisado, mas fiquei com sede.
Eu recordo, exatamente, de tudo o que pensei até a chegada daquele momento. Até estar literalmente ali e desfrutar de algo tão prazeroso. Horas antes tive razões para não estar lá. Minutos antes tive razões para também não estar lá. E instantes antes, também. A verdade é que possuí todas as chaves de todas as portas e, sem querer, nenhuma se fechou. Sim, mantiveram-se abertas e eu sequer notei. Ao menos não até sentar naquela cadeira, naquela mesa, naquele restaurante e naquele instante. Sentei com meu pedaço de torta predileto, uma colher na mão e a boca transbordando saliva. Comi sozinho até sua chegada, repentina e inesperada. Um pedido de licença, claro. Um desejo de se sentar no lugar que, minutos depois, descobri ser sempre o seu. Fui agraciado da mais bela companhia já desfrutada em uma refeição naquele mesmo local. Apreciei a beleza que os olhos podem apreciar, e compreendê-la há tempos já muito passados e vividos. Pude apreciar os sons claros da fala exata e do sorriso tímido quando contava que preferia ir aos bailes do que frequentar os cultos de sábados. Sim! Reconheceu que suas escolhas trouxeram-lhe as desventuras que recebeste, tal não pôde saber se trouxeram-lhe a solidão de uma vida consigo. Também apreciei seu pedido para que ligasse um dia qualquer, que rezasse e que não me esquecesse de quem era. Sim, apreciei suas confissões e, principalmente, sua franqueza para com um estranho.
Senti-me feliz por nossa conversa, e triste pela chegada da minha partida. A admirei do momento em que me pediu licença ao momento em que me agradeceu pela companhia. Fiquei entusiasmado com cada uma de suas confissões, fossem elas verdadeiras ou não pois, acima de tudo, amei cada segundo de atenção que dei. Talvez esqueçamos dos nomes um do outros mas, certamente, não esquecerei do dia em que ela me chamou de benzinho. 

quinta-feira, 7 de maio de 2015

Conex]ceç[ão


A razão que motiva a existência de uma estrada é tão bela quanto uma flor de maracujá, no entanto sua frieza, aspereza e tamanho podem torná-la sem emoção.
No entanto, cabe aos que enxergam beleza procurar dar emoção àquilo que é inanimado, mesmo tratando-se de uma estrada, motivada a ligar destinos e universos...

terça-feira, 5 de maio de 2015

Eu sou a imensidão

Não consigo descrevê-lo. Só sei que quando tomei conhecimento dele quis, imediatamente, conhecê-lo. Um dia, quem sabe. A imensidão desse nosso planeta só diminui assim, quando nos comparamos a ela e percebemos que, mesmo assim, não somos comparáveis. E que a cada onda que toca nossos pés, na praia, tocaram pés em outro continente, que tocaram outros pés dias antes, anos antes, séculos antes e milênios antes. A imensidão que, dia após dia, torna-se maior ou menor, dependendo do quanto tu deseja fazer parte dela.

segunda-feira, 4 de maio de 2015

E a Rosa de Hiroshima permanece viva


A beleza na destruição, na desconstrução, na decomposição.
Quem se horroriza com a beleza da destruição não exatamente repudia a imagem, e sim o que a ela está atrelado. Já se foram quase 70 anos desde que a conexão entre horror e esta magnífica imagem foi criada. Não é justo não nos permitirmos encher de endorfina perante tamanha beleza artificial. Não digo que devemos contempla-la como se fosse uma obra passível de reprodução todos finais-de-semana, mas que possamos admitir a incrível artificialidade, a matéria decomposta, a forma desconstruída e as vidas destruídas.
Liberte-se.

sábado, 2 de maio de 2015

Enquanto ainda está quente

Penso muito en ti. Especialmente quando ponho aquela música para ouvir, com uma melodia simples e cheia de emoção. Nada complexo, feito o que somos.
Penso em ti. Em nossas mãos dadas, com os dedos entrelaçados, caminhando rumo à lugar algum. O vento bagunça teus cabelos, sopra perfume do tempo e sussurra algumas palavras.
Penso muito. Aquelas visões futurísticas, de carros voando e robôs nos ajudando, meras paisagens perto das lembrança que tenho de nós. Sorrir com teu sorriso, arrepiar com o teu cheiro; coisas que o futuro amedronta.
Sim, eu penso. Já disse. É irremediável. Sou incapaz de não pensar. E quem não é? Somos todos cativos de nós mesmos, aguardando uma redenção que esquecemos de nos permitir. Leve meu coração enquanto ele ainda está quente. Não entenda isso por piegas. Estou tentando minha redenção e, eu sei, estou te tornando parte dela. Talvez não devesse destinar tamanho fardo, sequer sei se de fato é possível suportá-lo. Sequer sei se suporto. Este deveria ser o parágrafo para concluir, mas é, simplesmente, o mais inconclusivo de todos.
Enquanto a música toca, com suas notas, melodia e ritmicidade, nos vejo caminhando, de mãos dadas, contemplando o horizonte e deixando o vento sussurrar. Está ouvindo? Ele diz "eu te amo" e eu penso "eu também".

quarta-feira, 29 de abril de 2015

Tão Combus

Sou pior do que a fogo: ardo sem oxigênio.

quinta-feira, 16 de abril de 2015

Reinicie o sistema

Sabem, existe todo um discurso nesse mundo sobre conserto disso ou daquilo. Que medidas não radicais devem ser tomadas antes da radicalização. Ok, sem problemas. Mas será que somos capazes de perceber a obsolescência à tempo?
Não é errado desistir e partir para algo novo. Quem disse o que é certo? Quem dita as regras? Eu? Tu? O presidente? Fomos e somos programados para consumir, seja isso inorgânico, orgânico, com vida e, inclusive, uma alma.
Desistir nunca foi o caminho mais fácil. É digno dos heróis bradarem espadas em busca da consagração, mesmo o braço que empunha a espada estar decepado à metros de distância. Tudo bem, ele não desistiu, morreu honradamente. Mas e quem disse que ele não desistiu ao perceber a iminência da morte?
A grande coragem não é seguir pelo único caminho, tampouco seguir pela última opção que resta. Coragem é tomar uma decisão, custe ela o que custar. Muitas vezes acredito que a solução seria um reset em tudo que vivemos.

terça-feira, 14 de abril de 2015

Voluptuoso regurgitamento

Estou farto de tanto vazio

Vazio de tanta falt[tur]a

Saciado de tanta sede

Sedento de saciedade

Formalmente desfigurado

Desfiguradamente formal

São da insanidade

Insano de tanta...

De tanta...

[...]

Insano de tanta necessidade em esvaziar vazios estabelecidos, preenchendo e esvaziando, formando e desformando, caracterizando e descaracterizando.

In não está em sano, assim como sano jamais estará para in (especialmente sano).

segunda-feira, 13 de abril de 2015

Alvorada atemporal

Vejam só esses tempos verbais, completamente arrogantes entre si. Pensam que são onipotentes quando, na verdade, não passam de irmãos do mesmo sangue, só nascidos em épocas diferentes.
Desejam brincar juntos de ciranda, de paga-pega e de quem fica mais tempo sem piscar, mas não são capazes de sequer conviverem ao mesmo tempo no mesmo lugar. Ironia? Talvez das mais ingratas. Gostariam tanto de conviverem... Pobre irmãos.
Mas há um segredo, que era de conhecimento somente deles, que vou revelar: eles podem saciar seus desejos através de nós, permitindo encontros de nós com nós mesmo, de épocas diferentes; com quem traga lembranças da alvorada prazerosa, não esquecida, apenas adormecida.
Raia teus sóis enquanto contento-me com apenas um. Dono de passado, presente e futuro.

Encontro com o Passado (tributo à setembro de 2007)

segunda-feira, 30 de março de 2015

Alguns graus acima da realidade

Parado e flutuando
meus pés deixam de tocar o chão.
Na incrível sensaçao
em que a falta de controle é óbvia,
só penso que acima do chão
paira minha paz.

Na perfeita abstração,
seja colorida ou em preto e branco,
me vejo assim, flutuando.

Na irrealidade convéxa,
com tendência finita,
jamais calculável... Infinita realidade.

No plano cartesiano
me coloco acima do zero absoluto,
seja ele Fahrenheit ou abissal.
Perfeita matemática,
produtora de elípse inominável,
ponha-me acima da realidade.

Seja na perfeita abstração,
tanto colorida quanto preto e branco,
me quero assim, alguns graus acima da realidade.

(Encontros com o Passado: 16/06/2007)

quinta-feira, 26 de março de 2015

Um encontro do acaso sem descaso

As regras não são universais, o que já implica na impossibilidade de aplicá-las deliberadamente. Isso não torna tudo desordenado, apenas sutil às interpretações. Um jogo sem regras não é jogo, é balbúrdia. Regras sem jogadores são pura idiotice. Estúpidas tais quais as criaram.
Se o universo uniu tantos outros universos, e isso (des)acontece constantemente, é importante que o acaso (para que sermos tão rígidos?) seja valorizado: é o jogo sem regras, fadado aos acontecimentos do meio (início e fim, também). O descaso, infelizmente, faz parte das regras sem jogo.
Aqui fica algo desagradável de se admitir, ou até reconhecer, mas todo mundo já passou por isso, ou praticou (quem nunca? Poupe-me!) em algum momento: sabe aquelas regras próprias, baseadas  na (im)pura ignorância? Sim, as do tipo "se ele fizer isso não falarei mais com ele" ou "se for assim nem pensar". Ainda tem aquela "não falo com ela se ela não falar comigo". Percebem? Regras sem jogadores! Doutrinas próprias nascidas de masmorras internas desonestas.
Mas hoje foi um dia dos jogadores conhecerem as regras do jogo em que assumiram participar. É sábio dizer que, após apresentar as regras, é permitido desistir. Todos estão desobrigados dos jogos e, acima de tudo, desobrigados das regras. É impossível uma pessoa jogar futebol contra alguém que está jogando vôlei. Entendem?
Há jogos secretos, com participantes omissos e ingênuos. Para esse tipo um outro texto...


terça-feira, 24 de março de 2015

Russa montanha

Aborrece-me
a proximidade dos corpos
das mãos, dos pés
e dos pensamentos levianos

Entristece-me
a falta de tempo
a desculpa da falta de tempo
e as o obscenidades ditas por ele

Tranquiliza-me
que amanhã poderá ser diferente
sendo o hoje mero presente
e a certeza algo quase inexistente

Alegra-me
um novo sorriso, um novo olhar
de outro ser demente
livre do amor do passado ou do presente

segunda-feira, 23 de março de 2015

Não é o que você está pensando

Perdi o caminho que fazia
Já não recordo se era na trilha
Ou, talvez, nos passos de quem ia

Sim, perdi o caminho que faço
São todas as sombras
Mas não sei se talvez esteja cego

Que caminho eu percorria
Perguntou eu à mim mesmo
Enquanto encontrava-me comigo

Que destino eu desejaria
Se com o fim do caminho de ida
Era o fim do caminho de volta

E você me socorreria
Entre os caminhos perdidos
E as intrigas da vida

Eu não me socorreria...

quarta-feira, 18 de março de 2015

Delirio honesto

Foi estranho, só tenho certeza disso. Acordei em minha cama, desconfortável. Sentia algo rígido cutucando todo meu corpo, das pernas à cabeça. Estava deitado sobre ossos! Todos eles! Costelas, rádios, úmeros, omoplatas, fêmures, tíbias, vértebras e mais costelas. Se contei corretamente, contei 5 bacias, 1 esterno intacto e nenhum crânio. E isso é o que me intriga.
Após levantar, procurar por mais alguma bacia - sem sucesso - fui até a cozinha beber água. Lá encontrei uma mandíbula. Solitária, ao lado de um papel com um recado e uma caneta, daquelas esferográficas, ponta fina e tubo hexagonal. Sem tampa. Perguntava-me quem pudera tê-lo deixado alí. Certo de que não descobriria sozinho, voltei ao quarto, com a sede saciada e a mente inquieta: de quem era aquelas bacias? Certamente deviam ser 5 ossadas pois nada além das bacias e 10 fêmures eram evidentes sobre minha cama. Presumo que sejam do sexo feminino: pelo tamanho de cada fêmur certamente eram menores que eu (e não tenho motivos para desejar estar deitado entre homens).
Deitei novamente, com os ossos esparramados pelo chão, num conforto digno dos exaustos. Sonhei com os benditos crânios: 5 mulheres (não diga?) sendo apenas 1 ruiva e 1 loira. Todos cabelos lisos. Curiosamente não reconhecia nenhum daqueles rostos. Eram belos, mas nunca os tinha visto.
Despertei. Já com fome fui novamente para a cozinha, abri a geladeira e estava vazia. Uma lástima. Por fim decidi ler o bilhete: "Enquanto brincas de montar teu Frankstein fui fazer compras. Volto com o almoço. Seu Amor."
Ainda estou intrigado onde foram parar esses crânios... Vai ver plantei flores e esqueci.

terça-feira, 17 de março de 2015

Criações

Certo dia, talvez lá entre o quarto e o quinto, Deus criou o porco e pensou "Cara, como pude ser tão genial? Bacon e suco de laranja são sensacionais!!!"
Certo dia, lá pela Itália, não lembro bem por que nem como, alguém criou a pizza e pensou "Véi, agora sou Deus!"
E assim segue a sucessão de deuses e humanos na roda viva da vida.

segunda-feira, 16 de março de 2015

_Pai acende a luz?
_Para quê?
_Para eu deixar de temer.
_Filho, nem sob a luz do Sol eu deixo de temer.
_Mas tenho medo...
_E eu a conta de luz para pagar.

O Tédio Eterno

O que o tédio é para ti? Já se perguntou? Pensou sobre o fato de estar assistindo TV e perceber-se entediado? Ou olhava as horas enquanto trabalhava, frente ao computador, numa tarefa desinteressante e notou o tédio em chamas? Alguma vez sentiu-se permanentemente entediado?
Caro amigo, vou revelar algo das entranhas, dos abismos oceânicos de uma alma sedenta: o tédio é meu maior monstro de estimação. Sim! Eu passeio com ele 24 horas do dia, 7 dias da semana. O tédio é, para mim, a gula para os obesos. É impossível desfrutar de um período legítimo sem o tédio manisfestar-se como entidade macabra, aos urros e atitudes bestiais.
O tédio permanente é uma maldição conjurada, uma magia encarnada, um sepulcro desumano.
Mas acalme-se, nem todos são dignos de tal fardo. A verdade é que os predestinados a viver com tais chagas são escolhidos (por alguém muito sádico) tais como Hércules precisou passar por suas 12 provas. O único porém é que Hércules não enfrentou o tédio eterno. Sequer tal semideus poderia suportá-lo.
Sou superior ao semideus? De forma alguma, porém por ser mortal posso sepultar o tédio eterno.

terça-feira, 3 de março de 2015

Devaneio crônico sobre devaneios agudos

Por quê os monstros vêm à noite? Será que temem o dia e, por isso, acabamos por temer a noite?
Talvez eles sejam feito esses mendigos que dormem durante o dia e perambulam pela noite. Vai ver é isso mesmo: são mendigos em viagens astrais nas quais a alma deixa o corpo quando acordam pois, enquanto dormem, querem mais é um corpo para chamarem de seus. Esses mendigos papões que ficam pregando peça em quem dorme desavisado. Ou pior, não dorme! E então fica de um lado para o outro buscando justificativas para o que (pensam que) vêem.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

O peso da palavra


Na força e na pegada
No peso da patada
Que saberá a jogada
Pego e cravo, sinta:
o veneno das palavras.

Uma coisa irá saber
Quando eu corro longe
Só sentir a força que vem
Quando digo assim:

Eu pego e cravo. Sinta:
o veneno das palavras.
Quando ouvir duas vezes
Saberá da verdade

Da força ao coração
Quando o som da palavra
É o que encoraja
Na força e na pegada
O peso da patada
Quem sabe eu pudesse ser daqueles que escrevem
Quem sabe verdades inteiras para meias pessoas
Quem sabe meias verdades para pessoas inteiras
Quem sabe...


quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

Dedico esta valsa

O que o cão faz quando quer ser deixado em paz? Rosna. E o gato? Esconde-se. E eu? Ouço música clássica. Especialmente Chopin.

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Indisposição diária do inconformismo

Cansa-me ver a vida. Essa tua e, infelizmente, a minha. De uma não tenho escapatória e da outra, bem, até posso evitar, mas como se há tantas congruências ao longo da jornada?
Cansa-me ver a vida. Essa coisa modorrenta, cheia de tantos vazios e repleta de pouca coisa. Pessoas levianas, de espírito medíocre e mente incapaz de compreender. Cegos que vêem.
Cansa-me ver a vida. Essa necessidade barata em ser aceito ou pertencente à algo, forma descabida de compensar um laço desfeito/malfeito no passado. Desvergonha em não se aceitar.
Cansa-me ver a vida. Essa minha em frente ao espelho, penteando os cabelos, escovando os dentes e espremendo cravos.
Cansa-me ver a vida. Essa tua em frente à mim, perguntando-me por quê canso-me ver a vida.

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Meu querido e amado jeans

Um novo ano. Mais outro novo ano, na verdade. Reflexões neste início? Inúmeras. Grande parte delas vêm do passado. Sim, do ano passado.
O doce que tinha o sabor inigualável de uma vida, tornou-se amargo. Esse sentido sinestésico que torna tudo um só: o doce, salgado e cítrico em amargo; o amarelo, vermelho e verde em cinza; o dó, ré, mi em silêncio; o liso, o áspero e o quente em frio cálido.
Os prenúncios que outrora eram despercebidos, hoje são vistos.
Estou cansado.
O novo passado já está puído e desbotado. Não temo usa-lo e rasga-lo. Simplesmente não tenho forças para continuar.
Tentamos. Como tentamos.
Eu gostaria de poder utilizar meus jeans para toda uma vida, sem temer o desgaste. Gostaria, tão somente, não temer o seu desgaste. O tempo poderá arrancar pêlos das minhas partes internas das coxas, dos joelhos e panturrilhas, mas e de ti? O que fará o tempo contigo...
Vista outro enquanto há chance de vestir.
Para sempre lembrarei de ti...