segunda-feira, 30 de março de 2015

Alguns graus acima da realidade

Parado e flutuando
meus pés deixam de tocar o chão.
Na incrível sensaçao
em que a falta de controle é óbvia,
só penso que acima do chão
paira minha paz.

Na perfeita abstração,
seja colorida ou em preto e branco,
me vejo assim, flutuando.

Na irrealidade convéxa,
com tendência finita,
jamais calculável... Infinita realidade.

No plano cartesiano
me coloco acima do zero absoluto,
seja ele Fahrenheit ou abissal.
Perfeita matemática,
produtora de elípse inominável,
ponha-me acima da realidade.

Seja na perfeita abstração,
tanto colorida quanto preto e branco,
me quero assim, alguns graus acima da realidade.

(Encontros com o Passado: 16/06/2007)

quinta-feira, 26 de março de 2015

Um encontro do acaso sem descaso

As regras não são universais, o que já implica na impossibilidade de aplicá-las deliberadamente. Isso não torna tudo desordenado, apenas sutil às interpretações. Um jogo sem regras não é jogo, é balbúrdia. Regras sem jogadores são pura idiotice. Estúpidas tais quais as criaram.
Se o universo uniu tantos outros universos, e isso (des)acontece constantemente, é importante que o acaso (para que sermos tão rígidos?) seja valorizado: é o jogo sem regras, fadado aos acontecimentos do meio (início e fim, também). O descaso, infelizmente, faz parte das regras sem jogo.
Aqui fica algo desagradável de se admitir, ou até reconhecer, mas todo mundo já passou por isso, ou praticou (quem nunca? Poupe-me!) em algum momento: sabe aquelas regras próprias, baseadas  na (im)pura ignorância? Sim, as do tipo "se ele fizer isso não falarei mais com ele" ou "se for assim nem pensar". Ainda tem aquela "não falo com ela se ela não falar comigo". Percebem? Regras sem jogadores! Doutrinas próprias nascidas de masmorras internas desonestas.
Mas hoje foi um dia dos jogadores conhecerem as regras do jogo em que assumiram participar. É sábio dizer que, após apresentar as regras, é permitido desistir. Todos estão desobrigados dos jogos e, acima de tudo, desobrigados das regras. É impossível uma pessoa jogar futebol contra alguém que está jogando vôlei. Entendem?
Há jogos secretos, com participantes omissos e ingênuos. Para esse tipo um outro texto...


terça-feira, 24 de março de 2015

Russa montanha

Aborrece-me
a proximidade dos corpos
das mãos, dos pés
e dos pensamentos levianos

Entristece-me
a falta de tempo
a desculpa da falta de tempo
e as o obscenidades ditas por ele

Tranquiliza-me
que amanhã poderá ser diferente
sendo o hoje mero presente
e a certeza algo quase inexistente

Alegra-me
um novo sorriso, um novo olhar
de outro ser demente
livre do amor do passado ou do presente

segunda-feira, 23 de março de 2015

Não é o que você está pensando

Perdi o caminho que fazia
Já não recordo se era na trilha
Ou, talvez, nos passos de quem ia

Sim, perdi o caminho que faço
São todas as sombras
Mas não sei se talvez esteja cego

Que caminho eu percorria
Perguntou eu à mim mesmo
Enquanto encontrava-me comigo

Que destino eu desejaria
Se com o fim do caminho de ida
Era o fim do caminho de volta

E você me socorreria
Entre os caminhos perdidos
E as intrigas da vida

Eu não me socorreria...

quarta-feira, 18 de março de 2015

Delirio honesto

Foi estranho, só tenho certeza disso. Acordei em minha cama, desconfortável. Sentia algo rígido cutucando todo meu corpo, das pernas à cabeça. Estava deitado sobre ossos! Todos eles! Costelas, rádios, úmeros, omoplatas, fêmures, tíbias, vértebras e mais costelas. Se contei corretamente, contei 5 bacias, 1 esterno intacto e nenhum crânio. E isso é o que me intriga.
Após levantar, procurar por mais alguma bacia - sem sucesso - fui até a cozinha beber água. Lá encontrei uma mandíbula. Solitária, ao lado de um papel com um recado e uma caneta, daquelas esferográficas, ponta fina e tubo hexagonal. Sem tampa. Perguntava-me quem pudera tê-lo deixado alí. Certo de que não descobriria sozinho, voltei ao quarto, com a sede saciada e a mente inquieta: de quem era aquelas bacias? Certamente deviam ser 5 ossadas pois nada além das bacias e 10 fêmures eram evidentes sobre minha cama. Presumo que sejam do sexo feminino: pelo tamanho de cada fêmur certamente eram menores que eu (e não tenho motivos para desejar estar deitado entre homens).
Deitei novamente, com os ossos esparramados pelo chão, num conforto digno dos exaustos. Sonhei com os benditos crânios: 5 mulheres (não diga?) sendo apenas 1 ruiva e 1 loira. Todos cabelos lisos. Curiosamente não reconhecia nenhum daqueles rostos. Eram belos, mas nunca os tinha visto.
Despertei. Já com fome fui novamente para a cozinha, abri a geladeira e estava vazia. Uma lástima. Por fim decidi ler o bilhete: "Enquanto brincas de montar teu Frankstein fui fazer compras. Volto com o almoço. Seu Amor."
Ainda estou intrigado onde foram parar esses crânios... Vai ver plantei flores e esqueci.

terça-feira, 17 de março de 2015

Criações

Certo dia, talvez lá entre o quarto e o quinto, Deus criou o porco e pensou "Cara, como pude ser tão genial? Bacon e suco de laranja são sensacionais!!!"
Certo dia, lá pela Itália, não lembro bem por que nem como, alguém criou a pizza e pensou "Véi, agora sou Deus!"
E assim segue a sucessão de deuses e humanos na roda viva da vida.

segunda-feira, 16 de março de 2015

_Pai acende a luz?
_Para quê?
_Para eu deixar de temer.
_Filho, nem sob a luz do Sol eu deixo de temer.
_Mas tenho medo...
_E eu a conta de luz para pagar.

O Tédio Eterno

O que o tédio é para ti? Já se perguntou? Pensou sobre o fato de estar assistindo TV e perceber-se entediado? Ou olhava as horas enquanto trabalhava, frente ao computador, numa tarefa desinteressante e notou o tédio em chamas? Alguma vez sentiu-se permanentemente entediado?
Caro amigo, vou revelar algo das entranhas, dos abismos oceânicos de uma alma sedenta: o tédio é meu maior monstro de estimação. Sim! Eu passeio com ele 24 horas do dia, 7 dias da semana. O tédio é, para mim, a gula para os obesos. É impossível desfrutar de um período legítimo sem o tédio manisfestar-se como entidade macabra, aos urros e atitudes bestiais.
O tédio permanente é uma maldição conjurada, uma magia encarnada, um sepulcro desumano.
Mas acalme-se, nem todos são dignos de tal fardo. A verdade é que os predestinados a viver com tais chagas são escolhidos (por alguém muito sádico) tais como Hércules precisou passar por suas 12 provas. O único porém é que Hércules não enfrentou o tédio eterno. Sequer tal semideus poderia suportá-lo.
Sou superior ao semideus? De forma alguma, porém por ser mortal posso sepultar o tédio eterno.

terça-feira, 3 de março de 2015

Devaneio crônico sobre devaneios agudos

Por quê os monstros vêm à noite? Será que temem o dia e, por isso, acabamos por temer a noite?
Talvez eles sejam feito esses mendigos que dormem durante o dia e perambulam pela noite. Vai ver é isso mesmo: são mendigos em viagens astrais nas quais a alma deixa o corpo quando acordam pois, enquanto dormem, querem mais é um corpo para chamarem de seus. Esses mendigos papões que ficam pregando peça em quem dorme desavisado. Ou pior, não dorme! E então fica de um lado para o outro buscando justificativas para o que (pensam que) vêem.