quarta-feira, 27 de maio de 2015

Em que sentido a bússola aponta?

Às vezes essas coisas acontecem, mesmo. Nos perdemos em nossos erros. Nos perdemos em bobas inseguranças. Nos perdemos à procura e, até mesmo, procuramos nos perder.
Estamos caminhando, muitas vezes correndo. Sequer tropeçamos e tampouco paramos para olhar mapas. Continuamos uma jornada errante aos trancos e barrancos. Esquecemos por onde caminhamos e de onde viemos. Pior, esquecemos do por quê! Então, sozinhos, rodeados de nada e tantas perguntas nos questionamos: estou perdido? Passam-se minutos, horas, dias, semanas, meses e anos até a chegada da dúvida, da incerteza, dos receios e, por fim, dos medos. Ou ainda pior, esse dia nem nasce.
Vidas perenes, imersas em um labirinto sem saída e menos ainda de caminhos e recantos desconhecidos. Uma vida confortável com a bunda sobre a almofada mais macia, os cotovelos apoiados em tecidos aveludados, sua barriga encostando na madeira e seus pés, inchados, cruzados abaixo da cadeira. Aquela face apática, inexpressiva até lhe perguntarem: será que nos perdemos?
Sim, uma derrota com platéia, uma vergonha assistida e uma falta de senso digna de elogios. Perdeu-se? Não foi sozinho? Então és digno da piedade dos náufragos. Se perdeu a si solitariamente então, meu caro, boa viagem.

terça-feira, 19 de maio de 2015

Benzinho

Hoje fiz algo que raramente faço: dei ouvidos. Sim, dediquei atenção auditiva às ideias. Também cedi meu tempo e simpatia à carência, àquela necessidade em ser ouvido quando ninguém mais dá ouvidos. Admito, desde já, que não foi escolha minha. Foi o acaso. Essa deliciosa e nefasta entidade que, quando ao seu gosto, sacia sua sede e acaba por secar os desavisados. Bem, eu não era um desavisado, mas fiquei com sede.
Eu recordo, exatamente, de tudo o que pensei até a chegada daquele momento. Até estar literalmente ali e desfrutar de algo tão prazeroso. Horas antes tive razões para não estar lá. Minutos antes tive razões para também não estar lá. E instantes antes, também. A verdade é que possuí todas as chaves de todas as portas e, sem querer, nenhuma se fechou. Sim, mantiveram-se abertas e eu sequer notei. Ao menos não até sentar naquela cadeira, naquela mesa, naquele restaurante e naquele instante. Sentei com meu pedaço de torta predileto, uma colher na mão e a boca transbordando saliva. Comi sozinho até sua chegada, repentina e inesperada. Um pedido de licença, claro. Um desejo de se sentar no lugar que, minutos depois, descobri ser sempre o seu. Fui agraciado da mais bela companhia já desfrutada em uma refeição naquele mesmo local. Apreciei a beleza que os olhos podem apreciar, e compreendê-la há tempos já muito passados e vividos. Pude apreciar os sons claros da fala exata e do sorriso tímido quando contava que preferia ir aos bailes do que frequentar os cultos de sábados. Sim! Reconheceu que suas escolhas trouxeram-lhe as desventuras que recebeste, tal não pôde saber se trouxeram-lhe a solidão de uma vida consigo. Também apreciei seu pedido para que ligasse um dia qualquer, que rezasse e que não me esquecesse de quem era. Sim, apreciei suas confissões e, principalmente, sua franqueza para com um estranho.
Senti-me feliz por nossa conversa, e triste pela chegada da minha partida. A admirei do momento em que me pediu licença ao momento em que me agradeceu pela companhia. Fiquei entusiasmado com cada uma de suas confissões, fossem elas verdadeiras ou não pois, acima de tudo, amei cada segundo de atenção que dei. Talvez esqueçamos dos nomes um do outros mas, certamente, não esquecerei do dia em que ela me chamou de benzinho. 

quinta-feira, 7 de maio de 2015

Conex]ceç[ão


A razão que motiva a existência de uma estrada é tão bela quanto uma flor de maracujá, no entanto sua frieza, aspereza e tamanho podem torná-la sem emoção.
No entanto, cabe aos que enxergam beleza procurar dar emoção àquilo que é inanimado, mesmo tratando-se de uma estrada, motivada a ligar destinos e universos...

terça-feira, 5 de maio de 2015

Eu sou a imensidão

Não consigo descrevê-lo. Só sei que quando tomei conhecimento dele quis, imediatamente, conhecê-lo. Um dia, quem sabe. A imensidão desse nosso planeta só diminui assim, quando nos comparamos a ela e percebemos que, mesmo assim, não somos comparáveis. E que a cada onda que toca nossos pés, na praia, tocaram pés em outro continente, que tocaram outros pés dias antes, anos antes, séculos antes e milênios antes. A imensidão que, dia após dia, torna-se maior ou menor, dependendo do quanto tu deseja fazer parte dela.

segunda-feira, 4 de maio de 2015

E a Rosa de Hiroshima permanece viva


A beleza na destruição, na desconstrução, na decomposição.
Quem se horroriza com a beleza da destruição não exatamente repudia a imagem, e sim o que a ela está atrelado. Já se foram quase 70 anos desde que a conexão entre horror e esta magnífica imagem foi criada. Não é justo não nos permitirmos encher de endorfina perante tamanha beleza artificial. Não digo que devemos contempla-la como se fosse uma obra passível de reprodução todos finais-de-semana, mas que possamos admitir a incrível artificialidade, a matéria decomposta, a forma desconstruída e as vidas destruídas.
Liberte-se.

sábado, 2 de maio de 2015

Enquanto ainda está quente

Penso muito en ti. Especialmente quando ponho aquela música para ouvir, com uma melodia simples e cheia de emoção. Nada complexo, feito o que somos.
Penso em ti. Em nossas mãos dadas, com os dedos entrelaçados, caminhando rumo à lugar algum. O vento bagunça teus cabelos, sopra perfume do tempo e sussurra algumas palavras.
Penso muito. Aquelas visões futurísticas, de carros voando e robôs nos ajudando, meras paisagens perto das lembrança que tenho de nós. Sorrir com teu sorriso, arrepiar com o teu cheiro; coisas que o futuro amedronta.
Sim, eu penso. Já disse. É irremediável. Sou incapaz de não pensar. E quem não é? Somos todos cativos de nós mesmos, aguardando uma redenção que esquecemos de nos permitir. Leve meu coração enquanto ele ainda está quente. Não entenda isso por piegas. Estou tentando minha redenção e, eu sei, estou te tornando parte dela. Talvez não devesse destinar tamanho fardo, sequer sei se de fato é possível suportá-lo. Sequer sei se suporto. Este deveria ser o parágrafo para concluir, mas é, simplesmente, o mais inconclusivo de todos.
Enquanto a música toca, com suas notas, melodia e ritmicidade, nos vejo caminhando, de mãos dadas, contemplando o horizonte e deixando o vento sussurrar. Está ouvindo? Ele diz "eu te amo" e eu penso "eu também".