terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

Cativo da beleza

Tudo começou quando criança. Tinha aquela menina de cabelo tigela e franja sobre os olhos. A Bruna era, até então, a coisa mais linda pela qual me apaixonei. Ela tinha uma cicatriz no nariz que eu achava tão charmosa, mas o que um menino de 6 anos sabe sobre charme?
Então, em um natal, ganhei um brinquedo chamado Pinos Mágicos, uma alternativa em conta para os caríssimos LEGO. Montava e desmontava, mil formas, mil coisas. A beleza, em tudo, estava no instante em que minha história acabava em um desastre, como a queda de um helicóptero, a morte de um robô, a batida automobilística entre dois carros.
Depois veio os papéis, os grafites e todos aqueles rabiscos. No começo eu era um realista (!) mas então decidi que ser realista era aquém da minha paciência e optei por uma expressão rústica. Acho que fiz uma boa escolha... Afinal nem tudo deve ser perfeito.
Ah, como esquecer aquela primeira vez? Aquelas teclas brancas e pretas? Aquelas perfeições e aqueles acidentes que ora eram sustenidos, ora eram bemóis. Como não me deliciar com aquela ambiguidade simultânea entre um Dó e um Ré?
Então, vieram as emoções mais intensas. Vieram as emoções que o corpo proporciona. Movimentos coordenados, sincronizados com outros corpos. Um malabarismo formidável. Foi o ballet, foi o jazz, foi o contemporâneo. Também foi o sexo, claro. Também foram as tragadas no baseado e os bons goles nas cervejas. Sim, foram intensos malabarismos.
Anos depois, voltei para os acidentes perfeitos, aquele soar dissonante que poucos apreciam. Voltaram com palavras, com rugidos que vociferavam os penitentes dentro da mente. Voltaram com uma horda, foi impossível resistir. Voltaram querendo liberdade, ansiosos por viver do mundo, para o mundo. Queriam todos: ver, ouvir, sentir e tocar. Queriam consumir tudo o que fosse possível ser consumido. Estavam sedentos. Mas não era qualquer sede, era uma sede rara, capaz de ser saciada com o mínimo de água possível. Eram capazes de observar nas pequenezas a grandiosidade de todos os pequenos nós.
Todos foram libertos e, assim, também me libertei... E então me tornei cativo da beleza.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

Quando o Buk me salvou pela primeira vez

Conversávamos, então chegou seu ônibus e ela subiu temendo ser demasiada demorada em se despedir e, assim, perder a chance de encerrar aquela conversa que tanto a agradava. Não entendi, fiquei com perguntas sem respostas e nunca mais a vi aguardando àquele ônibus. Por sorte, na minha última esperança, surgiu o Charles e me levou para o bar. Afoguei toda a esperança. Pude ser eu, novamente.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

Rebanho e o seu pastor

Sabe
Talvez eu não sinta falta de você
Sabe
Talvez quem sinta são todos eles
É
Eram eles que se acalmavam
Era
Não restava um monstro angustiado
Verdade
Nem mesmo um monstro desconfortável
Sim
Isso tudo era por tua presença
Era
Hoje você não está aqui e eles sentem
Não
Não há o que eu possa fazer
Eu
Amava quando eles adormeciam e
Assim
Eu podia amá-la sem temer acordá-los
Mais
Que isso tudo era poder dormir com eles
Todos
Aninhados juntos à tua paz celestial
Disso
Mais que tudo que já vivi em vida
Sinto
Sinto a falta de viver sequer em sonho

domingo, 7 de fevereiro de 2016

O sepulcro

Quando o universo vibra e não ressonamos juntos significa que estamos mortos. Mortos de espírito. Mortos de emoções. Mortos que perambulam. Perambulamos feito estátuas mórbidas à procura de algo que sabemos o que é, e onde encontrar. Vivemos errantes como se soubéssemos a ordem das coisas. Somos tolos.
Dentro dessa massa bruta concretada que dizemos ser nós, vive algo que dizemos ter se tornado nós, e que dizemos pensar como nós, e agir como nós e viver como se fôssemos nós. Dentro dessa brutalidade, às vezes, vive algo pronto para desabrochar, mas a morte em nós sepultou uma beleza irreconhecível. Irreconhecível não para poucos, mas para os muitos que colaboraram com seu funeral.
Que do sepulcro nasça uma linda flor, e que desta flor um agradável perfume, e deste perfume o retorno das lembranças capazes de desfazer o concreto, a brutalidade, a morbidez da existência.

SINAPSES DESVAIRADAS