Tudo começou quando criança. Tinha aquela menina de cabelo tigela e franja sobre os olhos. A Bruna era, até então, a coisa mais linda pela qual me apaixonei. Ela tinha uma cicatriz no nariz que eu achava tão charmosa, mas o que um menino de 6 anos sabe sobre charme?
Então, em um natal, ganhei um brinquedo chamado Pinos Mágicos, uma alternativa em conta para os caríssimos LEGO. Montava e desmontava, mil formas, mil coisas. A beleza, em tudo, estava no instante em que minha história acabava em um desastre, como a queda de um helicóptero, a morte de um robô, a batida automobilística entre dois carros.
Depois veio os papéis, os grafites e todos aqueles rabiscos. No começo eu era um realista (!) mas então decidi que ser realista era aquém da minha paciência e optei por uma expressão rústica. Acho que fiz uma boa escolha... Afinal nem tudo deve ser perfeito.
Ah, como esquecer aquela primeira vez? Aquelas teclas brancas e pretas? Aquelas perfeições e aqueles acidentes que ora eram sustenidos, ora eram bemóis. Como não me deliciar com aquela ambiguidade simultânea entre um Dó e um Ré?
Então, vieram as emoções mais intensas. Vieram as emoções que o corpo proporciona. Movimentos coordenados, sincronizados com outros corpos. Um malabarismo formidável. Foi o ballet, foi o jazz, foi o contemporâneo. Também foi o sexo, claro. Também foram as tragadas no baseado e os bons goles nas cervejas. Sim, foram intensos malabarismos.
Anos depois, voltei para os acidentes perfeitos, aquele soar dissonante que poucos apreciam. Voltaram com palavras, com rugidos que vociferavam os penitentes dentro da mente. Voltaram com uma horda, foi impossível resistir. Voltaram querendo liberdade, ansiosos por viver do mundo, para o mundo. Queriam todos: ver, ouvir, sentir e tocar. Queriam consumir tudo o que fosse possível ser consumido. Estavam sedentos. Mas não era qualquer sede, era uma sede rara, capaz de ser saciada com o mínimo de água possível. Eram capazes de observar nas pequenezas a grandiosidade de todos os pequenos nós.
Todos foram libertos e, assim, também me libertei... E então me tornei cativo da beleza.
terça-feira, 23 de fevereiro de 2016
Cativo da beleza
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