Até os passos dos errantes são capazes de cruzar o mesmo caminho por inúmeras vezes. Esses passos que cegamente se postam em frente do outro. Seja um degrau acima, seja um abaixo.
Coincidente, ou não, é errantes desconhecidos que se cruzam, dia após dia. Seja nos mesmos passos, seja nos mesmos caminhos, seja em poucos cruzamentos.
Há um errante que, frequentemente, encontro. Sempre ele, de pele judiada pelo sol, com suas rugas já bem sinuosas, largas e profundas. O vejo assim: de costas para a porta, sempre duas estações de onde descemos, com sapatos, calça e camiseta branca (hoje com um manto de cor indefinida devido ao frio), fones em seus ouvidos (com aquele led vermelho piscante), anel protuberante dourado no anelar esquerdo, um relógio com alguns ponteiros no punho direito e hoje - inclusive hoje - talvez por descuido, uma corrente que ostentava um pingente volumoso que decidi decifrar: a imagem de um bode sobreposta à um pentagrama invertido.
Pensei mil pensamentos. Fantasiei mil fantasias. Seria um satanista? De religião apropriada? Amante da música dita pesada e seu flerte ao demoníaco? Seria, ele, quem? Pensei veementemente que ele possa ser um terapeuta holístico, adorador do oculto, talvez (eu seria).
De tudo, em cada manhã do amanhã, pois o hoje já foi dentro do agora, quando o encontro sempre pego-me fitando suas linhas e formas. De certo modo é um solitário hábito de criar histórias hipotéticas sobre a vida de seres alheios. Ele não motiva a mim mais que outros, o único detalhe é encontra-lo com frequência sempre pelo meu destino rotineiro.
Um dia, com coragem, motivarei-me à uma única pergunta. Vocês, claro, já devem imaginar.
segunda-feira, 12 de maio de 2014
(Des)Contos
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