sábado, 13 de agosto de 2016

Esse silêncio que clamas

Talvez eu pudesse ser esse silêncio que tu clama de dentro da alma. Essa vontade que tu murmura por entre um pensamento e outro e eu, atento em sonho, percebo como vociferações danadas de vontades. Tu não as percebe. Creio que em teu jazigo vertical e ambulante as intempéries neurais tampouco lhe causam efeito, no entanto a sintonia trazida por Morpheus aniquila qualquer sono puro que eu possa ter.
Todas as noites, sonos e todos cochilos são assim, como se nada pudesse ser devidamente desligado. Eu só desejaria não poder te ouvir, não te sentir, não saber o que tua alma clama quando nem mesmo tu ouve à ti. Talvez eu pudesse ser o silêncio que tu clama de dentro da alma. Teus anseios, desejos, dúvidas, inseguranças e incapacidades... Talvez eu pudesse ser isso tudo para ti. Tudo e até mais um pouco. Eu poderia ser tu se assim quisesse. Poderia suportar tuas dores, medos, aflições e desesperos. Eu seria, em mim, tudo aquilo que tu quisesse ser para ti entre um clamor e outro, aos sussurros enquanto deseja calma, paz e plenitude.
Talvez eu pudesse ser esse silêncio que tu clama de dentro da alma. Eu gostaria que tu dissesse o mesmo, que tu será capaz de acalentar a frieza, afagar o rústico, abraçar os espinhos, acariciar as lâminas, beijar a eletricidade, segurar a chama, iluminar a escuridão, acalmar a inquietude, molhar o seco... Ser porto de tudo que é desgovernado. Eu gostaria de verdade pois eu não murmuro de dentro da alma, eu clamo à plenos pulmões: junte meus cacos. E se ao juntar abandoná-los, tudo bem, estará em direito pois jamais fui clausura pois talvez eu pudesse ser esse silêncio que tu clama de dentro da alma.

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