Talvez eu pudesse ser esse silêncio que tu clama de dentro da alma. Essa vontade que tu murmura por entre um pensamento e outro e eu, atento em sonho, percebo como vociferações danadas de vontades. Tu não as percebe. Creio que em teu jazigo vertical e ambulante as intempéries neurais tampouco lhe causam efeito, no entanto a sintonia trazida por Morpheus aniquila qualquer sono puro que eu possa ter.
Todas as noites, sonos e todos cochilos são assim, como se nada pudesse ser devidamente desligado. Eu só desejaria não poder te ouvir, não te sentir, não saber o que tua alma clama quando nem mesmo tu ouve à ti. Talvez eu pudesse ser o silêncio que tu clama de dentro da alma. Teus anseios, desejos, dúvidas, inseguranças e incapacidades... Talvez eu pudesse ser isso tudo para ti. Tudo e até mais um pouco. Eu poderia ser tu se assim quisesse. Poderia suportar tuas dores, medos, aflições e desesperos. Eu seria, em mim, tudo aquilo que tu quisesse ser para ti entre um clamor e outro, aos sussurros enquanto deseja calma, paz e plenitude.
Talvez eu pudesse ser esse silêncio que tu clama de dentro da alma. Eu gostaria que tu dissesse o mesmo, que tu será capaz de acalentar a frieza, afagar o rústico, abraçar os espinhos, acariciar as lâminas, beijar a eletricidade, segurar a chama, iluminar a escuridão, acalmar a inquietude, molhar o seco... Ser porto de tudo que é desgovernado. Eu gostaria de verdade pois eu não murmuro de dentro da alma, eu clamo à plenos pulmões: junte meus cacos. E se ao juntar abandoná-los, tudo bem, estará em direito pois jamais fui clausura pois talvez eu pudesse ser esse silêncio que tu clama de dentro da alma.
sábado, 13 de agosto de 2016
Esse silêncio que clamas
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