domingo, 24 de julho de 2016

Refeição eloquente

Hoje foi um dia inusitado, sem sombra de dúvidas. Estava distraído observando as paisagens que se cruzavam, desatentas umas das outras, quando notei aquela formosa teia, bem esculpida por sobre aquelas curvas delineadas, torneadas e até perigosas.
Foi difícil evitar a devoção da atenção naquele brilho reluzente. Fio por fio, um à um, prismavam a luz num efeito digno de contemplação divina. Feito um digno inseto voador, atordoado pela luz, pus-me em rota de colisão com toda aquela eloquência visual. Eis que morri.
Do outro lado, talvez em outra vida, talvez em outro plano, estava ela deitada ao meu lado, acariciando meus cabelos, orelhas e pescoço. Perguntou se eu estava bem ou se queria algo. Antes que pudesse responder, tentei entender o que se passava. Notando minha confusão ela sorriu e disse "Acalme-se. Você caiu na minha teia. Não tenha medo, vou te tratar bem." Então tudo fez sentido, recobrei a memória e acalmei os ânimos. Não havia morrido, enfim.
Passado dias, e somente dias, notei que estava cativo da minha algoz. E esses dias apenas serviram para ela preparar a sua refeição com todo amor e carinho, afinal ela disse que me trataria bem, mas não disse até quando e se até o fim.

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